Viciado em Cinema e TV (A Sequela) por Nuno Cargaleiro

Fevereiro 26 2005




Filme: Mar adentro

Realizador: Alejandro Amenábar

Interpretes: Javier Bardem; Belén Rueda; Lola Dueñas; Mabel Rivera; Celso Bugallo; Clara Segura



Será de grande surpresa verificar que num filme que fala de morte existe tanta poesia e tanta beleza em cada plano que Amenábar nos apresente. Em momentos calmos e incómodos existe passagem para acasos paralelos do quotidiano, à medida que percebemos aquilo que é referido como vida digna para ser vivida.

Mar adentro não é um filme revolucionário sobre a eutanásia no sentido político, apresentando-se desde o início como um filme muito humano. Conceito esse que a câmara namora com cada personagem apresentada.

A natureza funde-se com o clima triste e pesado do filme, para de repente apresentar a mais quotidiana realidade, bem exposto na viagem que Ramón Sampedro (Bardem) toma na parte detrás de uma carrinha. Mas é através de tanta beleza que Amenabár consegue demostrar a angústia maior da decisão de Sampedro: de que lhe vale amar quando não pode amar, de que lhe vale ver o mar se não o pode senti-lo, que lhe vale amar o mar se foi ele que o destruiu.

As outras personagens da história são os vértices nessários para que cada linha ganhe maior sentido. A família de Sampedro é irreprensível no apoio que lhe presta, e até mesmo a personagem do irmão mais velho de Sampedro é perdoado pela sua agressividade devido a demonstração subtil da dor de quem não pode fazer mais nada do que já faz.

Mas é nas personagem femininas que se sente os pilares debaixo de Sampedro: Manuela, a cunhada que feita sua mãe cuida dele com toda a dedicação e todo o absentismo de julgamentos sobre as convicções de Sampedro; Gené, a sua companheira de luta, amiga que o ampara diante o tribunal e a comunicação social para que ele possa como cidadão reenvindicar o seu direito para decidir a sua morte; Rosa, a amiga dedicada que apesar de toda a frustação que sente da sua própria vida tenta arranjar todas as suas forças para "salvar" Sampedro do seu desejo de morte; e Julia, a única mulher, sua advogada no processo, que em todo o filme consegue compreender a sua angústia visto sofrer de uma doença degenerativa que a faz caminhar lentamente para o abismo. A articulação e confronto entre estas personagens é precioso, por vezes mais do que qualquer cena em que Sampedro entre.

Mas isto não desmerece Javier Bardem como um dos melhores actores da sua geração. Numa interpretação dominada pela expressão facial e a voz, Javier Bardem consegue fazer-nos alienar da imagem que temos dele e fazer-nos ver um homem de meia-idade (cuja caracterização é exemplar) que no seu inferno pessoal chora ao rir.

Falar mais sobre o filme seria desvendar os pormenores subtis que Amenabar nos preparou. E será nessa subtileza que o filme entrará entre os nossos poros, sendo impossível ficar indiferente.

5 estrelas.


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publicado por Nuno Cargaleiro às 06:50

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