Viciado em Cinema e TV (A Sequela) por Nuno Cargaleiro

Janeiro 01 2007


Sendo o segundo capítulo de uma trilogia de Joaquim Leitão, "20,13" consegue ser melhor do que "Inferno", embora o elenco não seja construído por nomes tão sonantes como o primeiro. A razão para isso prende-se com a estabilidade do argumento, cenário, e construção de história secundárias, que ajudam a criar todo o ritmo quotadiano que se imagina existir na altura.

A história é simples, embora exista muitas insinuações que se evitam assumir. Numa base, em pleno decorrer da Guerra Colonial (no dia 24 de Dezembro de 1969, a norte de Moçambique) vive a apartente tranquilidade. Talvez porque a confusão costuma acontecer para outros lados... Ali só se têm de preocupar com alguns contrabandistas que de vez em quando, aproveitando a proximidade da fronteira, procuram passá-la para fazerem negócio...

Contudo, a chegada de várias personagens (Leonor, a sedutora mas sofredora mulher do Capitão, o capelão que virá celebrar a missa de Natal, e um preso que é encarcerado até ser possível interrogá-lo) irá desencadear um desenrolar de acontecimentos, que acabará por colocar muitos entre a espada e a parede. Entre um ataque externo que surge durante a noite, por um inimigo paciente e misterioso, também são vítimas de um inimigo interno que se move por outros motivos, acabando por vitimar uma das personagens... Agora, têm que aguentar até de manhã, altura em que chegarão reforços, embora até lá terão de descobrir quem de dentro é que tem culpas que procura esconder...

Roçando o filme de guerra com o policial, "20,13" consegue assim dar-nos um "teaser" através do crime e das relações existentes pelas várias personagens principais (um que ama uma, a qual ama outro, que é também adorado por outra, que é amada por um que pensa que ela ama outro, embora esse outro ama um) que consegue cativar-nos, embora prenda-nos com o seu objectivo principal: retratar uma época austera numa terra seca, onde a fé (ou a ausência de...) não é importante, onde a aparência é um modo de sobrevivência, e onde a escuridão acaba sempre por chegar... Estes pontos são atingidos sobretudo através de um desenrolar de vários "cromos" de quartel, que cultivam núcleos secundários e dramas particulares...

"20,13" é um bom exemplo de cinema português, procurando recordar a nossa história sem ser de um modo pretencioso... Aconselhável, nem que seja para verificar algumas interpretações que surpreenderam pela positiva (Marco D'Almeida, Maya Booth, Ivo Canelas, Adriano Carvalho, e todo os "cromos de quartel"), quer seja para ver um filme português que consegue apresentar ritmo e criatividade...

Destaque especial para a fotografia, que consegue fazer-nos acreditar que Alcochete (o local real das gravações) é de facto Moçambique, e que estamos de facto em 1969, numa altura onde cantar bem era imitar Madalena Iglesias e onde Zeca Afonso era exemplo vivo de cultura de intervenção.

 

Bom
3 estrelas

publicado por Nuno Cargaleiro às 16:33
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