Viciado em Cinema e TV (A Sequela) por Nuno Cargaleiro

Fevereiro 11 2006




Bem,... perdoem-me este entusiasmo, mas eu quero mesmo ver este filme!...
publicado por Nuno Cargaleiro às 08:27

Fevereiro 11 2006




Possivelmente nunca falei aqui de um filme tão complexo e chocante como este... Possivelmente poderá passar ao lado de muitos, mas "Caché" é uma obra prima que com o tempo será apurado no gosto cinematográfico das massas... Contudo é um filme extremamente violento, quer no seu argumento ou na forma como transporta-nos para dentro do filme e como responsabiliza-nos do decurso de toda a história... Tudo isto é feito com extrema subtileza, mas quando entendida é tida como um "murro no estômago" que nunca tivemos em mais nenhum filme!...

O conceito inicial é simples: um casal aparentemente normal (Juliette Binoche e Daniel Auteuil, um apresentador de um programa de televisão cultural) e com um filho de cerca de 12 anos começa a receber misteriosamente cassetes em casa que apresenta o seu próprio dia à dia. São horas que são gravadas, mostrando num único plano a entrada da sua casa, mesmo que eles não estão presentes ou não se passe aparentemente nada. A questão sobre quem está a ser o "voyeur" coloca-se logo de início, e o curioso é que a personagem de Auteuil refere a dado momento, ao estar-se a ver na cassete, que era impossível ele ter passado na rua da forma como a imagem apresenta sem ter visto a suposta câmera... E aqui é que a história começa a ficar cada vez mais densa!... Com as cassetes começam a chegar notas com referências do passado, e a situação de tensão começa a revelar mais detalhes sobre a personalidade de cada um.

Auteuil é brilhante na interpretação de um homem que "vai-se desnundando", fazendo aparecer os podres que em nós temos dificuldade em aceitar. A forma coerente como ele desenvolve o decurso da personagem faz perceber que para além de ser um dos melhores actores francês, foi magistralmente dirigido por Haneke. Não é de destrezar a interpretação de Binoche, mas todo o filme centra-se intensamente na personagem de Auteuil, apesar do argumento revelar que os "segredos" não se limitam somente a esta personagem.

Haneke consegue com grande mestria confundir-nos do ínicio até ao fim, e ao menos tempo interpelar-nos numa história que fala sobre mentiras, segredos do passado, racismo e xenofobismo, assim como o desejo perverso "voyerista", que simboliza naquele micro-universo um clima que se sente cada vez mais na nossa sociedade, e com isto refiro sobretudo, a nossa sociedade ocidental.

Desde o momento inicial em que os créditos são apresentados perante a imagem já presente da "câmara oculta", até ao final onde vemos uma sequência onde a mesma "câmara oculta" permanece, somos enebriados pelo decurso do argumento à procura de uma "solução lógica" que nos faça sentir tranquilizados. Como espectadores que somos, acabamos entranhados com o desejo de ver mais, que a história continue,... que os podres sejam revelados, seja qual forem as consequências, e que o "culpado" seja encontrado e punido. Assim, à medida que o desenlace do filme se avizinha procuramos desesperadamente o "culpado", o que vai fazer com que procuremos explicações completamente improváveis.

A solução passa por um aspecto que surge várias vezes durante o filme: as imagens do noticiário que passam na televisão, apresentando guerras e conflitos que decorrem no mundo, onde as personagens são simples espectadores que praticamente nunca "ligam" às mesmas, preocupando-se em vez disso com o "seu próprio mundo". Esta é a metáfora do filme, em que implica-nos como personagens do mesmo filme, retirando toda a passividade do nosso papel como espectador... A câmara nunca existiu naquele "mundo", existindo somente para nossa satisfação e para nosso prazer mórbido. Esse "murro no estômago" acaba por ser mais do que uma "acusação", mas sim um alerta à nossa responsabilidade social e a questões político-sociais que o cidadão ocidental comum procura cada vez mais ficar isento.

Filme extremamente corajoso numa sociedade com tendências cada vez maiores a apatia!... Uma obra prima do mesmo realizador de "A Pianista"... Têm mesmo que ir ver!...

Excelente
5 estrelas

publicado por Nuno Cargaleiro às 06:01

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