Viciado em Cinema e TV (A Sequela) por Nuno Cargaleiro

Maio 21 2006


Robert Langdon : I'm into something here that I cannot understand .


Eu admito desde já, eu não li o livro, até porque fiz questão de não o ler... A simples assumpção (tida por toda a gente com quem falava) de que o seu conteúdo, nomeadamente a "teoria secreta", seria verídico fez-me afastar do fenómeno que toda a gente que só falava do livro, e fez-me perder o interesse no livro... A teoria é interessante, e até gostava que existisse realidade nisso, mas acho que não é o mais importante... Mas isso são outros quinhentos...

Voltando ao filme, é fácil compreender o nível de expectativa que existia à volta do mesmo... Milhões de leitores ansiosos por ver no ecrã a representação física dos seus heróis e vilões... Contudo, devo dizer que essas expectativas possivelmente sairão "furadas", até mesmo para os "seguidores" de Dan Brown . Parafraseando o comentário de uma pessoa com que falei sobre o filme, "o filme mostra abertamente o quanto ridículo é o livro"... Isto deve-se às diferenças de estruturas e técnicas de comunicação entre a literatura e o cinema. O livro de Dan Brown apela a não parar de ler através de pequenos acontecimentos, e isso faz com que esteja-se sempre com a expectativa de ver onde a história vai acabar... Porém, isto num registo cinematográfico (e atendendo que toda a estrutura do argumento é bastante fiel à origem) não resulta tão bem, pois torna desnecessariamente o filme maçudo e chato, e para além disso permite uma visão mais global do todo, conseguindo um nível de análise diferente do que seria possível ao ler o livro... Para além disso, quanto ao argumento, devo dizer que é das coisas mais previsíveis que já vi!... Sobre o twist secreto" eu sabia algumas coisas, mas não tinha total conhecimento de todos os segredos, porém não tive dificuldades nenhumas em antecipá-los!...

Outra coisa que não gostei do filme foi a realização de Ron Howard . Pessoalmente, não gosto dele como realizador. Considero-o mediano e ainda não vi nada que realmente me surpreendesse. "O Código de Da Vinci " não é excepção. Tem uma realização monótona, sem grande identidade, e por vezes com problemas em definir-se: a inclusão de cenas "à la 24" de câmara ao ombro são um exemplo disso, destoando da direcção do resto do projecto, e para além disso, são uma tentiva frustrada e sem qualidade de quem procura dar algum dinamismo nas poucas cenas de acção/perseguição, "copiando um estilo da moda" sem saber dominá-lo.

Quanto ao elenco... esperava mais!... Tom Hanks apesar de parecer o "protagonista" é tão dispensável na sua interpretação que se lá não estivesse (ou se o casting fosse dado a um actor de terceira categoria) nós não daríamos por nada!... Existe uma diferença entre contido e inexpressivo , e neste filme Hanks não acertou no ponto... Acho que precisa de lembrar-se um pouco do início da sua "consagração" e procurar arriscar mais, em vez de se acomodar a uma posição obtida!

Alfred Molina e Jean Reno são razoáveis, não avançando mais do que é o mínimo esperado por eles. Nenhum deles contagia o espectador, e até Molina não convence muito o carácter da sua personagem.

Andrey Tatou é das poucas satisfações do filme. Consegue dar alguma consistência e densidade à sua personagem em períodos em que a mesma parece ter uma função meramente decorativa, e consegue evoluir a sua personagem durante todo o filme para que esta seja coerente!... Talvez este filme seja uma boa forma de Hollywood "reconhecer" Audrey Tatou (que não quer dizer necessariamente que seja uma coisa boa...)! Paul Bettany também consegue transmitir essa sensação de qualidade, e infelizmente não é uma personagem que domine muito durante o filme, não passando de ser "o capanga de serviço", o que empobrece a personagem (que se no livro resultava pela descrição e pelo resultado da nossa imaginação, no filme não deixa de demonstrar somente o que é, apesar de o actor esforçar-se noutro sentido)...

Mas a interpretação mais divertida e revitalizante é de Sir Ian McKellen . O seu Sir Leigh Teabing para além de ser uma personagem importante para o desenvolvimento do filme é absolutamente deliciosa, notando-se perfeitamente a competência e o envolvimento deste grande actor. A sua presença consegue, por vezes, fazer-nos esquecer o quão chato e pouco aliciante é o filme, conseguindo prender a nossa atenção.

Em suma, "O Código de Da Vinci " não deverá ser dos "grandes êxitos do ano", nem tão pouco um filme de culto... Após ter tido a oportunidade de vê-lo consigo compreender porque é que o público de Cannes riu a "bandas largas" do filme e porque é que muitos saíram da sala antes de o filme acabar... E se Cannes ri-se não é um bom sinal!...

Para não ver, a não ser os "fanáticos de Dan Brown " que com isto podem vir a deixar de sê-lo...

Razoável
2 Estrelas

 
publicado por Nuno Cargaleiro às 21:46
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