Viciado em Cinema e TV (A Sequela) por Nuno Cargaleiro

Junho 18 2007

 

 

 Japanese newscaster : Susan Jones , who was wounded in a terrorist attack in Morocco , was discharged from a Casablanca hospital this morning , local time . The American people finally have a happy ending , after five days of frantic phone calls and hand wringing . In other news ...

 

Num mundo tão largo e distante, vivem realidades que nos passam ao lado, que não assumimos, nem sequer consideramos. Inundam os nossos notícias, movem a opinião pública reduzem-se a linhas que filtram qualquer som natural do dia à dia, apresentando uma textura plástica e irritantemente definida.

 

No nosso mundo, aquilo que entendemos é no fundo aquilo que compreendemos. Infelizmente, por vezes, isso reduz-se aquilo que queremos compreender no nosso nicho familiar segmentado e delimitado. Nessa assumpção, ignoramos o impacto dos outros, e a nossa importância num conjunto de relações aparentemente inconsequentes. Babel sobre isso, sobre a nossa capacidade de ouvir o que habitualmente não é traduzido, questionando a sociedade ocidental de realmente querer ouvir.

 

Uma pacata família é afectada por um incidente em Marrocos que afecta a mãe (Cate Blanchett), vítima de um disparo tido como ataque, na realidade fruto de um acidente de dois miúdos "vaidosos" de poderem manejar uma arma que nem se de um adulto se tratassem. Nesse "acaso" gera-se consequências que influenciam a vida de elementos em vários pontos do globo: a ama mexicana que se vê "impedida" de ir ao casamento do seu filho no México para cuidar dos filhos do casal, uma família marroquina desmembrada pelo poder político a quem não podem contrariar, uma rapariga japonesa que na sua desilusão deambulante encontra na polícia que pretende falar com o seu pai (devido ao caso anteriormente descrito) um rastilho para expor a armagura e os recursos para alcançar a figura paterna que tanto longe lhe parece, uma aldeia marroquina que se mostra perante o confronto de um casal aflito e os olhares desconfiados de turistas de várias nacionalidade, que pretendem a distância "segura" de um hotel de cinco estrelas, onde têm a certeza da qualidade do gelo que os empregados colocam no seu copo de "coca-cola light".

 

Todos estes conflitos chocam o espectador e procuram dar cara a possíveis histórias que nos defrontamos diariamente. Iñárritu tem o hábito de cruzar percursos para permitir o espectador chegar à sua conclusão, sem ser demasiado evidente ou tendencioso. Contrariamente ao estilo de muitos realizadores que vemos hoje em dia, especialmente nos Estados Unidos, Iñárritu consegue de facto questionarmos sem nos obrigar a um ditado de um discurso previamente escrito, que nem estudantes que decoram a matéria de estudo para um exame, sem compreenderem e articularem os seus conceitos.

 

As interpretações, sobretudos dos "actores desconhecidos", são de uma entrega desconcertante, que os afirmam ainda mais, nos olhos do espectador, como dignos representantes das figuras tipo que representam. A estes destacam-se a figura de Adriana Barraza (a comovente ama de duas crianças que vê toda a sua vida revista e avaliada por um simples erro de julgamente inconsequente), a silenciosa Rinko Kikuchi (que consegue da "mudez" da personagem demonstrar a revolta de uma adolescente zangada com a vida, consigo, e com o munde que não a consegue "escutar"), a jovem Elle Fanning (que contrariamente à irmã Dakota Fanning consegue personificar uma simples criança normal, e que neste filme revela discretamente a personificação da esperança "sufucada involuntariamente" no futuro do mundo, contrariamente ao seu "irmão" no filme, que mais velho, já se deixou educar pelas regras e persupostos desconfiados do mundo ocidental), e Boubker Ait El Caid (que neste filme, o único em que participou, é Yussef, uma criança marroquina de sete anos, "feita homem adulto" demasiado cedo, e com as piores consequências). Quanto a Brad Pitt e Cate Blanchett, apesar de não estarem mal, não brilham, pois numa história sobre "anónimos" as suas figuras valem mais por quem "são" e não por quem representam.

 

"Babel" é uma imagem, que nem a sua referência, a célebre Torre bíblica de Babel representa um desfazamento mundial onde todos têm as ferramentas para comunicarem, mas onde a política, a ecónomia e as classe sociais definem os destinos persistentes dos seus intervenientes: os do "fundo" lixam-se, os que estão a meio vão sobrevivendo, e os que estão ao alto vão-se queixando, ignorando interiormente a sua sorte, e neglegenciado a responsabilidade que têm no meio envolvente.

 

Este deveria ter sido o vencedor dos Óscares de 2006. Pelo menos para mim, é o vencedor.

 

Excelente

5 Estrelas

publicado por Nuno Cargaleiro às 21:53
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Para mim era difícil escolher estre este e Letters from Iwo Jima...

Mas sim, Babel está magnífico, sem dúvida alguma!
RJ/KritiCinema a 18 de Junho de 2007 às 23:06

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